“BEOWULF” CAPTURA O REAL
DISSIPADO NO IMATERIAL
 

 

Capturar as expressões e os movimentos de atores e transformá-los em animação. Robert Zemeckis demonstra ser defensor dessa técnica, já utilizada por ele em “Expresso Polar” e agora, de volta, em “A Lenda de Beowulf”.

 

Beowulf Movie Stills: Ray Winstone, Anthony Hopkins, John Malkovich, Robert Zemeckis

 

Como ainda não conferimos o filme, não é possível emitir qualquer opinião sobre o mesmo. Contudo, é pertinente refletir sobre uma arte que captura movimentos e os transforma em algo “espectral”.

 

Não seria essa a proposta? Propor uma outra realidade do que seria o, digamos, real? Ou seja, ver com outras entonações uma mesma matiz, certamente, gasta pela rotina?

 

Acredito que, além dessa percepção, o diretor de “Forrest Gump” ainda pretendia dar ao fator “épico” um palco que seria naturalmente seu. O do fantástico materializado em celulóide. Talvez criticando a imaterialidade das atuais produções de cinema.

 

De outra maneira “Beowulf”, talvez, não chamasse tanto a atenção, quanto o faz agora. E isso independente de suas prováveis qualidades narrativas.

VAIAS PARA "CLEÓPATRA"

Meses atrás, falamos sobre a versão brasileira de Cleópatra, imaginada pelo cineasta brasileiro Júlio Bressane. Na época, publicamos uma matéria onde o filme havia chamado a atenção de alguns jornalistas pela brincadeira de Bressane que utilizava um efeito de câmera para tornar as partes íntimas de Alessandra Negrini (a protagonista) uma pirâmide. Curiosíssima alusão...

Pois bem, "Cleópatra" concorreu no Festival de Brasília, levou 6 prêmios e, de quebra, recebeu (segundo o E-Pipoca), a maior vaia da história daquele festival ao ser anunciado como o grande vencedor do evento.

Confira trechos da matéria do E-Pipoca:

O filme "Cleópatra", de Julio Bressane, recebeu a maior vaia da história do Festival de Brasília ao ser anunciado como o vencedor do Candango de Melhor Filme. Enquanto vaiava fortemente, o público começou a sair da Sala Villa-Lobos antes de o cineasta chegar ao palco para agradecer. “A arte pode estabelecer relações com as diferenças, sobretudo sexuais. Agradeço a inteligência de vocês”, devolveu o diretor, ironizando a reação da platéia.

O filme, uma leitura livre, erudita e poética da história de Cleópatra na língua portuguesa, foi o grande vencedor da noite, levando seis Candangos: melhor som, direção de arte, trilha sonora, fotografia, atriz e melhor filme. Bressane é o diretor com o maior número de Candangos de melhor filme na estante, quatro no total - além de "Cleópatra", ele venceu com "Tabu" (1982), "Miramar" (1997) e "Filme de Amor" (2003).

Novembro chega ao final e, somente agora, consigo postar novamente no Observatório. A vida, corrida, infelizmente, nos obriga a deixar muitas coisas na geladeira. E escrever sobre cinema, uma paixão que em pouco tempo completará dez anos, fica cada vez mais difícil, principalmente quando, nos momentos de cansaço, a vontade superior é descansar a mente. Mas, como a reflexão sobre o Cinema, na verdade, relaxa, basta um bom cronograma para voltar à ativa. E vamos lá...

LEÕES E CORDEIROS...

Leões e Cordeiros (Lions For Lambs, 2007) do veterano Robert Redford trata da empreitada norte-americana no Afeganistão. O filme acompanha os vários segmentos da sociedade que, direta ou indiretamente, fazem parte da ação ou sofrem suas consequências. Como abordagem crítica, Redford mostra três situações, basicamente em diálogos, onde há uma discussão corajosa sobre os erros do governo norte-americano no tocante às intervenções militares neste e em outros países.  

Uma das primeiras imagens que vemos no longa-metragem são as pesquisas que indicam a baixa popularidade do Presidente e de suas ações militares. Uma mensagem diretamente subliminar que já expõe as fraturas que Redford irá discutir no decorrer do filme.

Numa das ações, um carismático senador (Tom Cruise) convoca uma jornalista veterana (Meryl Streep) para lhe passar com exclusividade a "nova" ação militar que o Governo pretende implementar no Afeganistão que, na percepção da jornalista, nada mais é do que uma versão moderna do confronto no Vietnã. Essa estratégia do senador é clara: tentar influenciar positivamente o público norte-americano e galgar espaços políticos com as possíveis benesses dessa ação.

Lions for Lambs Movie Stills: Robert Redford, Meryl Streep, Tom Cruise, Robert Redford

Em outro quadro, Leões e Cordeiros mostra um aluno desapontado com a disciplina do seu professor e soldados (ex-alunos desse mestre) que se integram à missão ianque no Afeganistão. O diretor em nenhum momento esconde sua insatisfação com a política intervencionista do seu país. Deixando sublinhado nos diálogos de seus personagens esse sentimento de repúdia. O que é um formato bastante eficaz, até pela sua consistência de pensamento. 

Há, ainda, uma abordagem ética sobre o papel da mídia nesse processo, quando Meryl reflete sobre o efeito que sua reportagem poderia vir a causar na opininão pública. Ela desperta para o fato de estar sendo usada politicamente, bem como a população, alheia ao processo como um todo.

Ao todo, um filme que expõe, com certa eficiência, as fraturas da política norte-americana.

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